
E custava-lhe muito responder. Ela tinha sido tudo para ele, mas agora a dor era dele, o vazio era dele e prescindia perfeitamente daquele folclore que é fazer de conta que se sente a sofrimento dos outros em momentos fatais. Questionava a obrigação moral de se fazer considerações abonatórias de quem parte e palavras de conforto a quem fica. Preferia que o deixassem em paz. Poderia não atender o telefone, tal como não abrir a porta de casa a ninguém, mas esperava telefonemas que poderiam resolver e responder às inúmeras questões burocráticas que não dominava.
A ele o que mais falta lhe fazia era a sua liderança. Ela comandava a vida, liderava os projetos, chefiava os planos, as prioridades, o tempo de descanso, o tempo do sonho. Ele seguia-a como um devoto. Uma carência que o tornava amargo e com falta de energia para cumprir metas e compromissos. Ao violarmos regras, fazemo-lo contra nós mesmos, em favor de algo maior que nós. Foi isso que ela lhe ensinara. Ela tinha essa coragem e ele era arrojado porque a seguia. Agora, sozinho, enclausurou-se com medo de ter que enfrentar os ódios de estimação, a arrogância dos bem situados. Quem quiser que avance e tome o lugar que já foi o dele, por direito dela.
Viu-a pela primeira vez num café do centro, no meio de um pequeno grupo, junto pelas circunstâncias. A maioria professores na escola secundária, deslocados por concurso em terra estranha e no meio de gente estranha. Ela era da cidade, mas nunca se tinham encontrado e por coincidência, o irmão mais novo dela era seu aluno. Falaram desse acaso como se se devesse a algo superior, ou pelo menos, deu-lhe a ênfase que poderia suscitar essa ligação transcendente. Riu-se, mas sem provocação, aplanando os cabelos louros longamente. E pela noite dentro, no meio de conversas pouco convencionais, ele rendeu-se à sua beleza e juventude, atraído pela sua capacidade dizer as coisas mais inacreditáveis e divertidas com um recato surpreendente.
Foi um amor calmo como um pôr-do-sol estival. Cada um tinha as suas obrigações - a maioria das vezes desencontradas, mas cumpridas religiosamente - mas tudo faziam para que fora desses compromissos profissionais ficassem juntos. As vezes, ela chegava já a noite ia longa e ele acordado, mas a fingir dormir por não querer que a insónia pudesse ser interpretada como uma preocupação castradora. As suas atividades subversivas, como ela dizia, não as clarificava completamente com o argumento de que ninguém tem que levar ao colo as inquietações propriedade exclusiva do outro. Mas aos poucos, fosse porque não conseguia estar separado dela, da cabeça dela, da sua militância política que lhe dava um espaço exterior ao seu, foi-se aproximando, lendo, questionando até que ela o aceitou na sua esfera, na condição de que nas suas atividades conjuntas nunca misturariam o facto de dormirem juntos.
Quando se perde alguém, a falta dele é como uma parte de nós que foi fendida e temos que inventar novas formas de nos ajeitarmos à vida. Tal como a carência de um braço obriga que em todas as circunstâncias se descubra uma alternativa de pegar nas coisas, de andar, até a abraçar. Foi o que sentiu quando a perdeu. O mundo poderia parecer o mesmo, ao olhar-se ao espelho encontrava o mesmo olhar, mas nas mais pequenas coisas sentia um desajustamento absoluto. Ver um filme, relacionar-se com os outros, assistir a espetáculos, tudo lhe sabia a metade. Como se o prazer das coisas ou dos atos fosse cortado a meio ou na totalidade como um imposto devido. Uma falha, uma folga, como qualquer coisa que não encaixa e precisa de um calço para não abanar.
E abanava sempre. Das pequenas coisas às maiores, das mais banais às mais interessantes, o vazio dela propagava-se como um vírus e permanecia sempre como uma mancha branca que criava dissonância na melodia, um borrão na pintura, uma parte esquecida do filme. Viveu tanto tempo com essa sensação que a foi tornando parte sua e sentia que ia definhando na mediocridade como quem vai perdendo as capacidades físicas ao envelhecer. Não era um estado de alma, era já uma filosofia. O desencanto, a linha curta, o desassossego permanente, o tentar amenizar o custo pela menor exigência consigo mesmo.
Sedimentou a visão depreciativa da vida, cuidada na sua formulação, com um conjunto de teses bem arrumadas, já sem qualquer rumor da ausência dela, mas uma ausência presente, de forma despudorada. As noites, dormidas a metade, ou insónias com a face dela e os seus gestos a povoarem-lhe as visões como um tsunami que avança com toda a força terra dentro e todo o seu corpo e o espírito soterrados nessa presença absoluta. A loucura, mesmo. O que é a loucura senão a força que derrota o ser e que instaura um poder exterior dentro de si? Poder que comanda gestos, determina ações e faz tábua rasa do que aprendeu e do que quer e do seu futuro e do presente. Ela transformou-se na sua demência. Percebeu isso, já tarde demais. Por não querer perdê-la guardou-lhe a imagem tão precisa que quando desejou desfazer-se já não conseguia. Já não era amor, mas o ódio que o invadia, cada vez com maior veemência.
Meses, anos, naquela impossibilidade de saída. Uma inaptidão metafísica para se recompor. Sabia que se devia a vulnerabilidades próprias e não só à partida dela. Era dele essa fragilidade, de não conseguir combater sozinho o exército de problemas e aborrecimentos. A personalidade obsessiva onde os pormenores ganham tanta relevância que o essencial surge encapuçado.
Nesse tarde fria, enrolado num casaco comprido, vinha no Metro, de pé e encostado à parede da carruagem, alheado nas faces que entravam e saiam. Surpreendia-se sempre com as figuras humanas mais estranhas, tentava adivinhar vidas difíceis pelo olhar vazio, e invejava o ar solto dos jovens que falavam alto e davam gargalhadas estrepitosas. Numa das estações, entrou uma rapariga com uma timidez a rodear-lhe o rosto e uns olhos baixos que elevava levemente apenas para ver os obstáculos que tinha de circundar. Foi-se aproximando dele à medida em que era empurrada pelos muitos que atrás se acotovelavam e forçavam a entrada na carruagem. Fazia-lhe lembrar uma onda que obrigava a movimentos pendulares que transportavam detritos e pessoas cada vez para perto. Ela olhou e sorriu e um gesto como a pedir desculpa. Ele respondeu com um leve encolher de ombros e um meio sorriso a comunicar-lhe que não havia problema. Não se lembrava do último sorriso que fizera a alguém.
No fim das crises, quando tudo está esclarecido e sem as dúvidas que nos vão empurrando para o abismo; após o desenlace, depois da queda, quando a calma chega à custa de mágoas que vão permanecendo vida fora, chegamos à conclusão que o encerramento dentro de nós foi tempo perdido. Não valeu o isolamento a que nos votámos, não valeram os ódios que se atiraram contra nós na escuridão, não valeram as noites mal dormidas, os dias escondidos do sol. A verdade é que passamos parte considerável da vida a mastigar os fracassos e após o luto percebemos que a origem de tanto padecimento não são os outros que partiram somos nós que ficámos. Por muito que alguém nos magoe, que alguma situação nos decepcione, depois as sombras afastam-se, readquire-se a serenidade e relativizamos uns e outros.
Depois regressamos à vida. Os outros ou as circunstâncias já não conseguem importunar-nos na sua pequenez. Se foram grandes, deixam de o ser e apresentam-se tão frágeis como nos vimos em confronto com eles. E os acontecimentos perdem-se no emaranhado da vida, vão-se esfumando e restam pequenos sinais de desconforto e sem o drama que causaram na altura da irrupção.
Saiu da estação do Metro e foi andando lentamente até à paragem do autocarro. O sol já se tinha ido embora deixando no seu encalço uma luz laranja viva. Lembrou-se da sua vizinha forçada durante viagem, do cheiro a um perfume macio e do calor morno que saltitava. Teve saudades dessa dimensão humana que transforma o tempo num bálsamo e esconde-nos de nós mesmos, da capacidade de nos ferirmos, de sermos algozes para connosco. Os outros salvam-nos, é isso… salvam-nos porque não permitem que façamos mal a nós mesmos, que viremos contra nós as armas que julgamos apontar aos outros.
Por uma espécie de magia, através de um ínfimo interruptor que acende a luz da razão e tudo fica mais claro. Temos que dar o salto, sair da concha, sair do transe criado pelo desencontro, pelo qual ficamos à mercê de nós. E o autocarro chegou. Deixou avançar uma senhora mais velha que estava atrás de si e ela sorriu-lhe. Era já a segunda vez que lhe acontecia no mesmo dia. Talvez fosse possível regressar ao mundo dos vivos, talvez não fosse tarde demais.





