Sexta-feira, 16 de Março de 2012

Recomeçar II



Surpreendia-se pela quantidade de gente que lhe ligava a lamentar a sorte dela, testemunhos emocionados que se sentiam afortunados pelo simples facto de a ter conhecido. Gente simpática, sem dúvida. Ele colocava a voz mais amena que conseguia para não os melindrar, respondia a todas as questões de forma sucinta, tentando a todo o custo que não transparecesse qualquer sintoma de desagrado ou tédio.

E custava-lhe muito responder. Ela tinha sido tudo para ele, mas agora a dor era dele, o vazio era dele e prescindia perfeitamente daquele folclore que é fazer de conta que se sente a sofrimento dos outros em momentos fatais. Questionava a obrigação moral de se fazer considerações abonatórias de quem parte e palavras de conforto a quem fica. Preferia que o deixassem em paz. Poderia não atender o telefone, tal como não abrir a porta de casa a ninguém, mas esperava telefonemas que poderiam resolver e responder às inúmeras questões burocráticas que não dominava.

No fundo, não precisava de palavras de conforto. Ela antes de partir deixara-lhe silêncios, olhares e falas que bastem. Mas não quero entrar em pormenores, coisas íntimas que devem ficar no recato porque esbanjadas e repartidas tornam-se banais. E se algo não foi vulgar foi ela própria e a sua vida. Aliás, pagou bem caro o facto de querer fugir da banalidade. A afirmação corajosa de si mesma, o confronto diário com o olhar e opiniões dos outros, transformando-se, para alguns, no inimigo público. A luta pelos direitos dos mais pobres e dos mais desprotegidos, a recusa em pontuar a sua vida por ritmos e etapas consideradas naturais, tudo lhe causou dissabores. A família não falava com ela há vários anos, uma quantidade de polémicas e lutas acesas que só eram possíveis pelo poço de energia que levava à sua frente todos quantos quisessem enfrentá-la.

A ele o que mais falta lhe fazia era a sua liderança. Ela comandava a vida, liderava os projetos, chefiava os planos, as prioridades, o tempo de descanso, o tempo do sonho. Ele seguia-a como um devoto. Uma carência que o tornava amargo e com falta de energia para cumprir metas e compromissos. Ao violarmos regras, fazemo-lo contra nós mesmos, em favor de algo maior que nós. Foi isso que ela lhe ensinara. Ela tinha essa coragem e ele era arrojado porque a seguia. Agora, sozinho, enclausurou-se com medo de ter que enfrentar os ódios de estimação, a arrogância dos bem situados. Quem quiser que avance e tome o lugar que já foi o dele, por direito dela.

Viu-a pela primeira vez num café do centro, no meio de um pequeno grupo, junto pelas circunstâncias. A maioria professores na escola secundária, deslocados por concurso em terra estranha e no meio de gente estranha. Ela era da cidade, mas nunca se tinham encontrado e por coincidência, o irmão mais novo dela era seu aluno. Falaram desse acaso como se se devesse a algo superior, ou pelo menos, deu-lhe a ênfase que poderia suscitar essa ligação transcendente. Riu-se, mas sem provocação, aplanando os cabelos louros longamente. E pela noite dentro, no meio de conversas pouco convencionais, ele rendeu-se à sua beleza e juventude, atraído pela sua capacidade dizer as coisas mais inacreditáveis e divertidas com um recato surpreendente.

Juntaram-se, de novo, na semana seguinte numa noite envolta de fumos. Esse pormenor digno de nota em que para se falar, pensar e ter prazer na noite parecia impossível sem um cigarro aceso na mão. Espiolharam tantas coisas deles como se analisassem com atenção um contrato antes da escritura no notário. Um amor construído pedra sobre pedra, desde o alicerce até ao telhado pela clarificação impiedosa, desde gostos a ódios de estimação, sonhos e temores. Ela queria tudo tão transparente, como queria qualquer coisa na sua vida. Chegaram a acordo já era dia e o cansaço era tanto que as pernas tremiam e dormiram o dia inteiro. Nos encontros seguintes assumiram que ficariam juntos. Não queriam mais ninguém porque lutar por um afeto é tão importante como por uma outra causa maior, dizia ela. Ele concordou, deslumbrado pela sua juventude, beleza e inteligência e surpreendido por ela o ter escolhido, sendo ele um ser sem beira, com um curriculum tão banal e tão normal fisicamente como um feijão branco no meio dos outros.

Foi um amor calmo como um pôr-do-sol estival. Cada um tinha as suas obrigações - a maioria das vezes desencontradas, mas cumpridas religiosamente - mas tudo faziam para que fora desses compromissos profissionais ficassem juntos. As vezes, ela chegava já a noite ia longa e ele acordado, mas a fingir dormir por não querer que a insónia pudesse ser interpretada como uma preocupação castradora. As suas atividades subversivas, como ela dizia, não as clarificava completamente com o argumento de que ninguém tem que levar ao colo as inquietações propriedade exclusiva do outro. Mas aos poucos, fosse porque não conseguia estar separado dela, da cabeça dela, da sua militância política que lhe dava um espaço exterior ao seu, foi-se aproximando, lendo, questionando até que ela o aceitou na sua esfera, na condição de que nas suas atividades conjuntas nunca misturariam o facto de dormirem juntos.

E chegou a madrugada fatídica. Uma chuva persistente e um vento assustador. Ao jantar, ainda a tentou demover de se ausentar numa noite daquelas, mas ela, por razão nenhuma, faltava a um contrato. Ele deitou-se para ouvir na escuridão as bátegas a baterem à janela com violência, depois o telefonema, gritos de lá, hiatos, cortes nas comunicações e vento e vozes ensopadas. O acidente terrível, ela enjaulada durante horas enquanto os bombeiros cerravam chapas e os gritos de uns confundiam-se com as ordens de outros. Ele foi direito para o hospital, porque uma das vozes o aconselhou, mas ela já chegou sem vida. Agora não se lembrava do que teria de fazer ou para onde ir. Foi ficando, num estado de abandono semelhante à loucura e levado por funcionários para salas de espera sucessivas, onde se passaram muitas horas sem as conseguir contar. No fim do dia seguinte, estava num cemitério rodeado de gente que não conhecia e que chorava, enquanto ele, que perdera tudo, não encontrava em si nenhuma lágrima, apenas desespero e raiva.

Quando se perde alguém, a falta dele é como uma parte de nós que foi fendida e temos que inventar novas formas de nos ajeitarmos à vida. Tal como a carência de um braço obriga que em todas as circunstâncias se descubra uma alternativa de pegar nas coisas, de andar, até a abraçar. Foi o que sentiu quando a perdeu. O mundo poderia parecer o mesmo, ao olhar-se ao espelho encontrava o mesmo olhar, mas nas mais pequenas coisas sentia um desajustamento absoluto. Ver um filme, relacionar-se com os outros, assistir a espetáculos, tudo lhe sabia a metade. Como se o prazer das coisas ou dos atos fosse cortado a meio ou na totalidade como um imposto devido. Uma falha, uma folga, como qualquer coisa que não encaixa e precisa de um calço para não abanar.

E abanava sempre. Das pequenas coisas às maiores, das mais banais às mais interessantes, o vazio dela propagava-se como um vírus e permanecia sempre como uma mancha branca que criava dissonância na melodia, um borrão na pintura, uma parte esquecida do filme. Viveu tanto tempo com essa sensação que a foi tornando parte sua e sentia que ia definhando na mediocridade como quem vai perdendo as capacidades físicas ao envelhecer. Não era um estado de alma, era já uma filosofia. O desencanto, a linha curta, o desassossego permanente, o tentar amenizar o custo pela menor exigência consigo mesmo.

Sedimentou a visão depreciativa da vida, cuidada na sua formulação, com um conjunto de teses bem arrumadas, já sem qualquer rumor da ausência dela, mas uma ausência presente, de forma despudorada. As noites, dormidas a metade, ou insónias com a face dela e os seus gestos a povoarem-lhe as visões como um tsunami que avança com toda a força terra dentro e todo o seu corpo e o espírito soterrados nessa presença absoluta. A loucura, mesmo. O que é a loucura senão a força que derrota o ser e que instaura um poder exterior dentro de si? Poder que comanda gestos, determina ações e faz tábua rasa do que aprendeu e do que quer e do seu futuro e do presente. Ela transformou-se na sua demência. Percebeu isso, já tarde demais. Por não querer perdê-la guardou-lhe a imagem tão precisa que quando desejou desfazer-se já não conseguia. Já não era amor, mas o ódio que o invadia, cada vez com maior veemência.


O prazer de a lembrar tornou-se no seu pesadelo. A racionalidade impunha-lhe a menorização da vida, a noite impunha-lhe ela e ele afastava-lhe a face que roçava a sua com os braços abertos na noite, às vezes gritava “vai-te embora” e ela regressava até que agitação soçobrava de repente, devido ao cansaço extremo. O raiar do dia entrava-lhe pela janela e o suor entranhado nos lençóis e a confusão de roupas dava ao cenário um tom de verde cru, como nos filmes onde o desgaste humano é sempre acompanhado de uma turbulência exterior tão compacta que se tem a sensação de que ambas são irresolúveis.

Meses, anos, naquela impossibilidade de saída. Uma inaptidão metafísica para se recompor. Sabia que se devia a vulnerabilidades próprias e não só à partida dela. Era dele essa fragilidade, de não conseguir combater sozinho o exército de problemas e aborrecimentos. A personalidade obsessiva onde os pormenores ganham tanta relevância que o essencial surge encapuçado.

Nesse tarde fria, enrolado num casaco comprido, vinha no Metro, de pé e encostado à parede da carruagem, alheado nas faces que entravam e saiam. Surpreendia-se sempre com as figuras humanas mais estranhas, tentava adivinhar vidas difíceis pelo olhar vazio, e invejava o ar solto dos jovens que falavam alto e davam gargalhadas estrepitosas. Numa das estações, entrou uma rapariga com uma timidez a rodear-lhe o rosto e uns olhos baixos que elevava levemente apenas para ver os obstáculos que tinha de circundar. Foi-se aproximando dele à medida em que era empurrada pelos muitos que atrás se acotovelavam e forçavam a entrada na carruagem. Fazia-lhe lembrar uma onda que obrigava a movimentos pendulares que transportavam detritos e pessoas cada vez para perto. Ela olhou e sorriu e um gesto como a pedir desculpa. Ele respondeu com um leve encolher de ombros e um meio sorriso a comunicar-lhe que não havia problema. Não se lembrava do último sorriso que fizera a alguém.

No fim das crises, quando tudo está esclarecido e sem as dúvidas que nos vão empurrando para o abismo; após o desenlace, depois da queda, quando a calma chega à custa de mágoas que vão permanecendo vida fora, chegamos à conclusão que o encerramento dentro de nós foi tempo perdido. Não valeu o isolamento a que nos votámos, não valeram os ódios que se atiraram contra nós na escuridão, não valeram as noites mal dormidas, os dias escondidos do sol. A verdade é que passamos parte considerável da vida a mastigar os fracassos e após o luto percebemos que a origem de tanto padecimento não são os outros que partiram somos nós que ficámos. Por muito que alguém nos magoe, que alguma situação nos decepcione, depois as sombras afastam-se, readquire-se a serenidade e relativizamos uns e outros.

Depois regressamos à vida. Os outros ou as circunstâncias já não conseguem importunar-nos na sua pequenez. Se foram grandes, deixam de o ser e apresentam-se tão frágeis como nos vimos em confronto com eles. E os acontecimentos perdem-se no emaranhado da vida, vão-se esfumando e restam pequenos sinais de desconforto e sem o drama que causaram na altura da irrupção.

Saiu da estação do Metro e foi andando lentamente até à paragem do autocarro. O sol já se tinha ido embora deixando no seu encalço uma luz laranja viva. Lembrou-se da sua vizinha forçada durante viagem, do cheiro a um perfume macio e do calor morno que saltitava. Teve saudades dessa dimensão humana que transforma o tempo num bálsamo e esconde-nos de nós mesmos, da capacidade de nos ferirmos, de sermos algozes para connosco. Os outros salvam-nos, é isso… salvam-nos porque não permitem que façamos mal a nós mesmos, que viremos contra nós as armas que julgamos apontar aos outros.

Por uma espécie de magia, através de um ínfimo interruptor que acende a luz da razão e tudo fica mais claro. Temos que dar o salto, sair da concha, sair do transe criado pelo desencontro, pelo qual ficamos à mercê de nós. E o autocarro chegou. Deixou avançar uma senhora mais velha que estava atrás de si e ela sorriu-lhe. Era já a segunda vez que lhe acontecia no mesmo dia. Talvez fosse possível regressar ao mundo dos vivos, talvez não fosse tarde demais.

Quinta-feira, 1 de Março de 2012

Recomeçar




Na vida nunca podemos recomeçar. Poderemos inaugurar um novo projeto, compor um novo cenário, mas seguiremos sempre com o tempo passado agarrado a nós. Um passado que se pega e se dissolve na nossa natureza. Um passado festivo ou sinónimo de fracasso, mas sempre um processo silencioso que se vai estendendo sobre nós como um cancro.


Olhou pela janela embaciada. O céu frio de um azul baço e, mais ao longe, um cinzento claro que parecia medido a régua e esquadro como uma moldura. Sentia-se esgotado, apesar de ter dormido durante todo o fim de semana. Não sentia tristeza, apenas um vazio profundo, sem qualquer vontade de estar com alguém ou noutro lugar. Encontrava-se numa idade em que a solidão já não é uma ameaça, nem um fardo, simplesmente porque não há alternativa. Assumira que já lhe bastavam os relacionamentos que jaziam em pedaços por toda a casa. Foi aprendendo que as loucuras não se dissolvem no outro mais próximo e que aquele vazio nunca poderia ser preenchido pelo corpo ou a voz de alguém.

Também não queria a piedade de ninguém. Odiava antever no olhar das pessoas mais próximas qualquer vislumbre de pena de si. Por isso nas festas, ou nos aniversários nunca atendia os telefones e mentia depois aos amigos dizendo-lhes que tinha aproveitado a quadra ou o fim de semana para viajar ou passar uns dias na praia. Não acreditavam, mas também não faziam mais perguntas. O grande problema é que a solidão é muito cruel porque nos questiona incessantemente, pede-nos esclarecimentos, justificações. Uma espécie de degredo em que o condenado não percebe as razões concertadas para um final como esse. A memória vai-lhe dando pistas, algumas erradas, esclarece mas não apoia, não altera, não apaga. Mastiga atos, fugas, traições, desmazelos. A memória não inventa desculpas. Depois podemos tentar compor o ramalhete, desviar atenções para outros factos, encontrar indícios que atenuem os dados, em períodos de tempo, em marcas. E ficamos quase eufóricos naquela letargia quando antevemos que talvez nos tivéssemos esquecido de algum indício importante, tal como numa investigação policial um único pormenor poderia alterar toda a acusação.

No meio daquela textura de um tempo opaco que não permite vislumbrar para além da sua própria desilusão, a dissolução dos sonhos como o detergente em água límpida, algo que se escapara das suas mãos sem qualquer despedida. O álcool, as correrias, as relações frias, castigadoras e cheias de azedume pelo facto de não deixar sequer a escova de dentes. O cansaço adquiria contornos surreais como se o seu volume fosse inversamente proporcional ao trabalho ou esforço feito. Recusava agora o mundo quando, após todas as guerras que travara, todos os adversários se tivessem esquecido da sua existência. Quando se trava uma guerra, o adversário teme-o, admira-o, odeia-o. Agora o resultado era o fim das hostilidades, um cheiro a pólvora seca, de fumos de cigarros entranhados nas paredes, de comidas que restavam em pratos por lavar espalhados por toda a cozinha.

Mas naquele dia sentia o cérebro mais ativo, menos nebulado. Julgou reconhecer a argúcia de outros tempos. Tinha que regressar à luta, ficar ali atolado em amarguras e lixo não era um destino que merecia. Bebeu água da torneira, um hábito antigo que também abandonara. Tomou um banho demorado, fez a barba e no final reconheceu-se. Cambaleou até à saída de casa e o sol magoou-o. Um sol de Inverno morno mas com uma luminosidade transparente. Como se pudesse ver o infinito desde que se dispusesse de um telescópio com essa grandeza. Os passos a certa altura aceleraram como comandados por alguém exterior, ele uma máquina em mau estado que parecia querer ultrapassar as suas potencialidades.

E sempre em frente, não sabia onde ir mas julgava não haver qualquer problema nisso. Corria, quase. Absorvia o sol e depois, aos poucos, a sombra da noite como uma necessidade de obter alimento para a alma. O frio gélido libertava-lhe suspiros de fumos cinzentos. Ligou ao João após meses de silêncio. O amigo que nunca poderia desligar-lhe o telefone, aquele com quem poderia sempre contar. Não sabia para quê. A conversa foi dura, como se as palavras tivessem peso e espinhos e saíssem com dificuldade de braços cansados.

- Onde estás? – Perguntou-lhe o João, com uma voz surpreendida.

- Na rua, não sei bem onde estou, apenas caminho.

- Mas vais para onde? – agora, com irritação.

- Vou andando. Apenas quero-te dar um abraço. Sei que tenho sido estúpido e tenho cortado a comunicação. Mas era só para te dizer que estou a pensar regressar à vida. – E fez um som como se estivesse a rir.

- Porra, já não era sem tempo! Como sabes, desisti de te procurar, eu e os outros malucos que se consideram teus amigos. Eles acham que enlouqueceste e não querem mais nada contigo.

- Percebo-os perfeitamente, mas não era minha a intenção de vos hostilizar. Apenas queria que me deixassem em paz. Não era boa companhia, mesmo que sentisse a injustiça de vos ignorar ou tratar mal. Pedir desculpa, é a única coisa com sentido que posso fazer neste momento.

- Ouve, da minha parte não há problema. Apenas quero que encontres de novo um rumo e o que ficou para trás esquece que eu também vou fazer por isso! Quando julgares oportuno aparece para bebermos uns copos. Mas julgo que há alguém merecedor de mais desculpas. Mas quase tenho a certeza que não te vai ouvir. Muitas vezes me ligou a perguntar se fez algo de errado. Aliás, para não teres grandes ilusões, julgo que ela já anda com alguém. Encontrei-a por acaso num bar e conversava com um tipo em situação de grande cumplicidade. Vai com calma.

- Não te preocupes, meu caro. Eu apareço em breve. Um abraço.

Do outro lado já não ouviu mais nada, na voz onde era evidente o desencanto que a amizade também pode originar. Foram décadas de cumplicidades crucificadas apenas por mecanismos de defesa e revolta contra a vida. Colocara em causa tudo o que era importante apenas porque pressentiu que já não conseguia lutar com as mesmas armas que lhe tinham dado as oportunidades e os sucessos.

Ela, na verdade, tinha sido a maior vítima. Como se o desemprego também tivesse sido obra dela, tal como os cuidados, o amor que de forma serena, infatigável e incondicional lhe dera ao longo dos anos.

Andava já num passo apressado havia mais de cinco horas. Apesar do frio que lhe arranhava a face, o suor caia-lhe e embaciava os óculos. Já via o prédio onde ela morava, atraído como por um íman. Tocou à campainha e a voz dela no intercomunicador a perguntar quem era. ”Sou eu, abre, por favor!”

Um silêncio prolongado, sem o ruído do trinco da porta. Percebia a hesitação. Tinham passado seis meses sem qualquer comunicação. Cortara todas as tentativas dela, no fim já a insultava quando ela do outro lado da linha, com lágrimas na voz o questionava sobre a razão de um afastamento sem qualquer lógica.

E agora esperava um sinal junto à porta. O frio rodeava-o como um cão agressivo e colocou os braços apertados contra o tronco para se proteger. Mantinha-se assim não sabia há quanto tempo, uma hora, mais? Até que o trinco se abriu e a voz dela seca, rija, “sobe!”. Com a segurança de que ele esperara. Entrou no elevador, tremia de frio, de medo, de excitação, de vergonha. E quando abriu a porta do elevador ela não estava como antes à sua espera com aquele sorriso bonito e a lançar-lhe os braços ao pescoço como uma adolescente enamorada. Viu apenas a porta da sua casa entreaberta e a luz mortiça do candeeiro do corredor. Aproximou-se, bateu ao de leve e entrou fechando a porta de seguida. Ela estava sentada no sofá da sala de pernas cruzadas com uma revista na mão. A televisão acesa, sem som. Entrou na sala, fixou os olhos nela como num jogo de crianças e só quando ela pousou os dela nos dele disse: “desculpa, se quiseres saio já!”. Ela manteve o silêncio e voltou os olhos para a revista e ele foi-se aproximado do sofá como se tivesse medo que algum assassino se escondesse por detrás da mesa. Sentou-se, mas manteve a distância. Depois já olhava para ela sem pudor, sabendo que estava prestes a receber as palavras mais sentidas e mais cruéis da sua vida. Ou a receber a indiferença mais impiedosa.

Continuava a sentir o frio que o enregelara na porta do prédio e mantinha os braços a rodear o tronco. Sem qualquer palavra ela ofereceu-lhe a manta de viagem que tinha sempre sobre o sofá. Agradeceu, aconchegou-se e recostou a cabeça.
Mais um tempo de impasse, um silêncio gelado como a noite. Lia a revista como se ele fosse um fantasma, um espectro que a rodeara meses e meses sem voz. Uma sombra que foi perdendo a força à custa do tempo e do silêncio. E foi ele que falou.

- Não vim para me perdoares, vim para te pedir desculpa. Não mereço, nem quero a tua piedade. Não tenho argumentos, nem razões para te ter tratado daquela forma, mas no momento em que quero recomeçar a vida, tinha que resolver o que ficou em aberto. Tão aberto que nada poderia começar sem o fechar, sem o resolver de qualquer maneira. Qualquer coisa que fizesse sem o remediar seria engolida, massacrada. Dizer-te que foste a melhor pessoa que conheci não tem qualquer relevância, mas dizer-te que foste a única mulher que verdadeiramente amei, já tem. E não te vou pedir nada. Asseguro-te que será a memória de ti que me vai ajudar a suportar o peso da vida. Porque para seguir em frente há que ter esperança e pessoas como tu justificam a caminhada. Acreditamos nas pessoas se conhecermos gente que valeu a pena.

E continuou, após um silêncio.
-Recomeçar algo que deitei a perder seria um erro. Há desilusões tão fortes que bloqueiam qualquer recomeço. Quando vinha para tua casa pensei nessa possibilidade. Mas seria impraticável pela desconfiança que cresceu desmesuradamente e pelas mágoas que ficaram. Para mim guardarei o melhor que recebi da vida. Aquilo que me deste. Apenas queria dizer-te que lamento o que te fiz e o que te disse.
Levantou-se, junto à porta voltou-se de relance e os olhos dela continuavam pousados na revista. Pareciam emudecidos. Na rua, o reencontro com o frio fazia-lhe lembrar lâminas que lhe fendiam as mãos e a face. O cansaço bloqueava-lhe os passos. Continuou a marcha maquinalmente, como se as pernas obedecessem a um ente exterior. Ele já dormia, quente na cama, mas o corpo continuava sem cessar com medo de se perder.

Nisto viu sinal de mensagem no seu telemóvel, sabia que era dela, tinha a certeza. Quase numa ânsia descontrolável, abriu-a e leu em voz alta para a tornar verdadeira: “ainda bem que vieste, ainda bem que esperaste, ainda bem que falaste. Assim, também eu poderei continuar. Na vida precisamos de fechar portas para que o frio não entre, o frio das crónicas por acabar, das histórias mal resolvidas. Fica bem e esquece-me. Comecei hoje a esquecer-te ”.

Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2011

FELIZ NATAL


Gasto grande parte das minhas energias a procurar conteúdo para o vazio. Preciso de um rio que me leve para longe; de um tesouro que negoceie a minha salvação. Espero um milagre. Milagre que me livre da vida medíocre, dos sonhos medíocres.

E depois, ao fim do dia, tão esgotado que o corpo é mais pesado que o chumbo, encosto-me ao móvel onde um presépio se equilibra, contendo figuras rudimentares. E fito aquele cenário de uma sublime ingenuidade e ternura. Seres humanos e animais em pose de serenidade. Sem qualquer pressa. Ali nada é medíocre, tudo respira plenitude. As razões, as motivações e objectivos. Nada se acotovela em busca do artificial e do acessório. Nada transpira matéria. Mas há afectos, sorrisos, comunhão, paz e humanismo.

O valor da profecia depende sempre da validação do tempo presente. Se a sua mensagem continua a responder às inquietações do tempo e a defender intransigentemente a dignidade humana, então poderemos estar seguros da sua mais-valia profética. Aquele presépio responde, ainda hoje, aos anseios humanos. Dois mil anos depois. No fundo, existe lá tudo o que se procura e tanta falta faz. Para o confirmar basta o silêncio recuperador ao fim do dia e um olhar de esperança.

Acabo por reconhecer que tudo o que é exterior àquele minúsculo lugar do Universo nenhuma falta me fará se tiver tudo o que lá existe.

Quinta-feira, 10 de Novembro de 2011

Bendita crise!




Soa perto de mim o teu murmúrio. Recusamos falar, tacitamente, porque um verdadeiro diálogo faz lembrar um saca rolhas que avoluma o vazio. É melhor viver sem questionar muito a vida, as cedências, as pequenas traições que levamos à frente como uma vassoura que empurra o lixo.

E depois a crise mais do que economia é silêncio e mágoa perante um futuro tão tristonho para os filhos que, inocentemente, continuam a querer amadurecer. Nós que julgávamos que teríamos direito a uma velhice tão calma como o sol de fim de tarde de Verão, percebemos agora que os tempos que se avizinham surpreendem pela sua imprevisibilidade e campo de sepultura de todos os sonhos. Para onde ir quando o mundo inteiro comunga das debilidades? Para onde nos viramos agora quando um abismo nasce em redor?

E quando chegas a casa descalças os sapatos com a mão apoiada na cómoda e a tua face exibe a tristeza da conjuntura, a tristeza das notícias que comungamos como se de uma seita religiosa se tratasse. Sentamo-nos à mesa e o som dos talheres ocupa o silêncio. Como foi o dia? Perguntei, por fim. Olhaste de forma breve para mim, sem tempo para fixares os meus olhos, e apenas sacudiste os ombros numa posição de derrota.

E eu senti-me culpado, não sei bem de quê, e comecei a contar a história do meu amigo Borges que ao fim de tantos anos está na eminência de regressar ao desemprego, um lugar já familiar para ele. A empresa de venda de peças de automóveis não pode competir com outros que usam material de contrabando e passam os dias a olhar para a porta da entrada a rezar para que alguém surja, lhes faça perguntas e mostre interesse nalgum objecto. Uma loja tão arrumada e limpa como se vivesse lá gente e utilizasse aquelas peças para qualquer coisa de útil. Já viste?!

E tu franziste a face como fazes quando a melancolia te exige um sinal, um sinal gráfico que já não necessite de ser explicitado por palavras. Concordo que as palavras estão gastas, apenas são necessárias para que o jantar não seja apenas apunhalado pelo ruído dos talheres. Um som tão metálico que fere os ouvidos, que castiga o silêncio como uma sombra negra.

E depois arrumamos a cozinha, dividindo tarefas ao meio para terminarmos ao mesmo tempo e sentamo-nos perto um do outro a ver televisão. Não dizemos mais nada porque cada vez mais é difícil falar sem nos repetirmos ou depararmos algo digno de nota. A vida é que exige recapitulações e justificações. Temos que argumentar pela sua validade, bondade, apresentar-lhe projectos aliciantes como um estudante responsável. E sempre o fizemos. Agora já nos faltam argumentos, como se fosse um erro continuarmos a querer gostar da vida, e a gostar de nós através dela. As notícias são péssimas para quem quer ser optimista. As novidades lá de fora não ajudam nada quem está dentro. Somam-se fendas, dívidas incobráveis, sacrifícios atrás de sacrifícios para quem tem alguma coisa. Somam-se futuros sem vergonha, futuros que não se desejam a ninguém, nem aos piores inimigos
E tantos dias passaram assim que lhes vamos perdendo a conta, como os velhos que perdem a memória ainda antes de terem razões físicas para isso. Quebras o som monocórdico da televisão e apenas dizes de forma aborrecida

- Isto não pode continuar, Luís!

- Pois não, respondo logo, mesmo sem saber o contexto. Seja isso o que for, sei que não podemos continuar assim. Mas espero que clarifiques, espero ansiosamente que não fique no ar a declaração, pairando sobre nós a sombra da indefinição. Apenas cinco palavras que sintetizam tudo, tudo aquilo que nos faz regressar a casa todos os dias. E após a tua declaração de princípio e o silêncio a seguir, o som da televisão parece que se elevou ao nível do ruído dos talheres ao jantar.

- Sabes que temos que mudar de vida, não sabes?

- Sei. Respondi logo para que não restassem dúvidas perante o meu acerto, a minha clarividência. Mesmo não sabendo ao certo o que ela queria nomear, eu tinha a certeza que fosse o que fosse a mudança era uma exigência. Não sabia qual. O casamento? A falta de dinheiro? A falta de entusiasmo? Pois é, não há salvação para nós, pois não? As contas avolumam-se e os saldos negativos na conta bancária tornaram-se a norma. Terei de encontrar um segundo emprego. O Carlos falou-me numas horas como portageiro da Brisa, ou poderei fazer uns biscates no IKEA. Pagam mal, mas sempre será uma pequena ajuda para nos equilibrarmos. Ah, também prometo diminuir as horas de futebol ao fim de semana. Tens razão, isto já nem é casamento nem é nada! Uma espécie de limbo onde vagueamos sem rumo. Mas não somos já demasiado velhos e pesados para encontrar um novo rumo? Sei lá eu, mulher, o que queres dizer …

- Tens toda a razão, isto não pode continuar assim!…

Repeti com firmeza, também eu estava resolvido. Mas para quê? Poderia ser tudo, mas tudo é nada. O melhor é não especificar! E ela fitou-me longamente, olhou-me com pena, como se tivesse colocado em parênteses tudo ao olhar para esta sombra que paira perto dela como uma punição. Reconheço-lhe esse sentimento no olhar e revejo nele a minha falta de jeito para viver neste mundo dos fortes, da competição, da guerra, da afirmação de si mesmo. Também não me interesso por arte, detesto espectáculos de dança clássica e odeio ler! É isso, deve ser isso. Sou um falhado no campo da estética e da filosofia! Resta-me a esperança que ainda não seja hoje que vá colocar tudo em pratos limpos. Hesita tendo em conta a crise que habita o mundo. A crise que nos engole. Porque ninguém está imune a ela. Todos irão precisar de um ombro amigo para recostar a cabeça, mais cedo ou mais tarde.


Bendita crise.

Terça-feira, 11 de Outubro de 2011

A Escadaria de Pedra




Ia caminhando sem rumo, estrada fora. As cores alaranjadas do Outono, envoltas num cheiro ácido pela falta da chuva e um sentimento próximo da angústia obrigavam-no a continuar. Não se lembrava de tantas coisas importantes que gostaria de recordar e, em vez delas, restava-lhe um monte de porcarias que o atormentavam. Mas o passado é um território selvagem que não se deixa domar e o grande trunfo da infelicidade é não se dispor de interruptores para cortar com ele, pensou.

Quando atingiu alguma maturidade deu-se conta que a importância dada a determinados acontecimentos, decisões, omissões, nada justificava pelo pouco impacto que tiveram na sua vida. Claro, fizeram mossa em determinadas alturas, mas não foram nem condicionantes nem impedimentos de nada de importante no futuro. Na grande maioria das vezes enrolar-se de forma neurótica com falhanços foi por não conseguir ser feliz no presente, seja no de hoje ou um presente qualquer do passado.
E ao lidar de outra forma com esses acontecimentos – deixando-os cair no lixo da memória – foram perdendo a sua força e capacidade de questionar ou importunar. Lida-se com o passado como se lida com os músculos: quanto mais se exercitam mais competentes ficam, pelo contrário, mirrarão até ao seu desaparecimento caso sejam abandonados à sua sorte.

Parou de rompante. E se a conclusão da cena da escadaria do Politécnico há vinte e seis anos atrás tivesse sido diferente? Nessa altura, ela olhou-o com surpresa, - estava longe de casa, sem prévio aviso - afastou-se levemente da colega que caminhava ao seu lado, e em tom de confidência diz-lhe numa timidez disfarçada de abatimento que ele tinha chegado tarde (um dia, um mês, umas férias de Verão?). “Chegar tarde” sem mais rodeios, ela certificava a razão da sua própria presença e o ar desolado e o silêncio dele garantiam o acerto dela. Apesar dos anos que passaram perto um do outro, cruzados em festas, em círculos festivos, olhares cúmplices, partilha de confidências e nunca tinham falado de amor. Esses anos estavam implícitos naquela pequena conversa. Nesse dia, não teve coragem para esclarecer, ela também não lhe pediu para ficar mais tempo.

Um mês e meio antes desse acontecimento, tinham-se reencontrado em casa dela após um interregno de cinco anos. Tinha ido estudar para Coimbra, ela ficara por ser mais nova. Depois mudanças familiares impediram reencontros e voltaram a ver-se numa tarde cheia de partilha de recordações e boa disposição. Ela estava muito mais bonita do que ele se lembrava, um sorriso acolhedor e no final, no meio de tanta gente, em simples despedidas garantiu-lhe que gostaria de a ver em breve. São adultos e não os adolescentes que foram. Também gostaria muito, respondeu ela. Ela ia partir de férias em Setembro com os pais e quando chegou após semanas, algo mudara de tal forma na sua vida que lhe responde convictamente: chegaste tarde! Sem qualquer censura, apenas a constatação de que a vida ordenara a alteração de cenários. Antes, nada lhe prometera, mas ele julgara que aquelas quatro semanas nada trariam de novo, pois cinco anos também nada tinham mudado…

Mas não foi. Então teria sido mais feliz do que foi caso a conclusão tivesse sido diferente? Naquela manhã sombria, quando o frio cortante transformava a respiração em pequeno nevoeiro que se dissipava de imediato, numa única frase, ela pôs fim a uma ilusão de amor que vinha da adolescência. Anos à espera – uma espera sem pressa, sem vínculos - e recebera uma resposta de que chegara tarde demais…

Agora, vinte e seis anos depois, regressa à escadaria. Está ali a olhar fixamente quem desce. Jovens e mais jovens em grupos, um alarido próprio de um intervalo de aulas. Ela vem junto de uma colega como se uma operação estética lhe recuperasse face e o corpo. Ele confronta-a com aquilo que sabe dela e com aquilo que restou dele e percebe que a vida nunca é um simples corolário. A vida é sempre o que tem que ser. Cada oportunidade, cada projecto é algo de novo e não uma consequência de um fracasso ou de um êxito anterior.

Caso contrário haveria só uma oportunidade para se ser feliz e não é assim. Qualquer resposta à vida é sempre o aprofundamento de quem nós somos e não o resultado de qualquer dissabor. Mesmo que em termos de calendário assumamos uma opção porque navegávamos ao sabor do vento, sem poiso para dormir.

Nesse caso já não tem qualquer sentido ficar ali ao fundo da escadaria à espera de um novo intervalo. Imaginar quão diferentes seriam os seus passos, as suas opções, as suas posses. Isso não tem qualquer sentido. Ninguém poderia viver caso isso fosse inevitável. O que o atrasou apenas pode significar que nunca poderia ter outra resposta diferente daquela que recebeu ao fundo da escadaria de pedra. Seriam impedimentos, nessa altura ou a seguir, ou meses depois…

Terça-feira, 27 de Setembro de 2011

O toque do telemóvel



Era uma noite escura com um céu baixo, sufocante. Uma chuva miúda, persistente. Arrumou o carro após voltas e mais voltas infrutíferas, depois colocou o casaco sobre a cabeça e saiu a correr até ao toldo vermelho iluminado. Sacudiu a água acumulada no casaco e nas calças com a mão aberta, depois espreitou pela janela, mas ela ainda não tinha chegado. Decidiu esperar no exterior.

Estava ali sem qualquer estratégia, sem qualquer preparação, nem discursos ensaiados, nem desculpas, nem sequer objectivos a cumprir. Tinha-a convidado por impulso, após um dia complicado no escritório durante o qual o stress entranhara-se na pele e transfigurara-se nos gestos e no tom de voz.
- Queres ir beber um copo a seguir?
Ela olhou para ele, e após um momento indecifrável, franziu os lábios e um movimento leve da cabeça em direcção ao tecto e em seguida um gesto de assentimento. Nada sabia dela para lá da sua afabilidade, ela tinha visto vezes sem conta a fotografia das filhas dele em cima da secretária.

Agora teria de aceitar as consequências do convite, fossem elas quais fossem. Um vulto enrolado debaixo do guarda-chuva aproximava-se em passos lentos. Já debaixo do toldo levantou o chapéu e fez-lhe um sinal amistoso acompanhado de um sorriso tímido. Entraram e soube-lhe bem o ar quente e a música suave que envolviam o espaço. Sentaram-se a um canto, numa sala ainda vazia, de imediato o empregado aproximou-se. Pediram cerveja, depois veio a conversa de circunstância, o tempo horrível, o dia caótico no emprego, a estupidez de tantas horas a trabalhar, tudo para que o constrangimento não se apoderasse de algum deles. Mas após um golo de cerveja mais prolongado, fitou-o por instantes e voltou os olhos para o copo, depois murmurou:

- Olha, se é uma questão de cama, a sério, não te preocupes! Vai directo ao assunto. Poderás pensar o que quiseres, eu não te vou perguntar nada, nem pedir explicações ou justificações. Eu alinho.

Fitou-a estupefacto e, sem nada dizer, levantou-se e no balcão pagou a conta, regressou à mesa, pegou-lhe na mão e puxou-a de forma decidida mas meiga. Ela levantou-se sem tentar responder, sem recuar, sem colocar resistência no gesto. Em silêncio, atravessaram a chuva, debaixo do mesmo abrigo, ele com a mão por cima do ombro dela, um gesto no mínimo estranho porque ao longo dos meses que se cruzaram no escritório nenhum contacto físico existira entre eles.

O automóvel dela ficou no parque, agora apenas a voz dela, uma voz metálica que fazia lembrar as instruções do GPS a identificar o caminho, à direita, no semáforo volta à esquerda, depois o silêncio quando não havia alternativas ao percurso. A cidade ia ficando para trás à custa de empurrões sucessivos, causados por cores garridas ou por pequenas filas que quebravam o ritmo.

A ordem de estacionar logo que houvesse lugar colocou ponto final à indefinição. Enroscaram-se de novo debaixo do guarda-chuva, ela agora também com o braço por trás das costas dele, e seguiram silenciosos mesmo no elevador que demorou uma eternidade a chegar ao quarto andar. Depois ao abrir a porta, um gato branco, enorme, veio cumprimentá-la, ela agachou-se e pegou nele com tanto cuidado como se tivesse medo de o partir, fez-lhe festas e aproximou-o da face. Depois colocou-o de novo no chão e fez-lhe mais festas profundas ao longo do corpo.

De rompante, deixou a passividade, pegou-lhe com firmeza nos ombros e começou a beijá-la na boca até que ambos em simultâneo e como ao desafio tiravam a roupa e abandonavam-na no corredor, como despojos de guerra abandonados na retirada. Muito tempo depois, ao lembrar-se de um corredor parcialmente coberto por roupas em desalinho, teve a convicção de que os despojos eram eles mesmos que iam desprezando, sem culpas, colocando a vida a zeros como num regresso à infância.
Os sons de ambos confundiam-se com o som da chuva que agora caía com mais violência e se deitava contra os estores como num assalto a muralhas. Agarravam-se um ao outro para se esquecerem, cada um por si, à procura da derrota deles mesmos, da vida, da morte, numa raiva surda contra a mesquinhez da própria vida, que dá mas pouco, que fere e retira, que alimenta mas exige sempre ponderação nos desperdícios.

Depois, muito depois, os corpos ganharam de novo a passividade e o escuro apenas decifrado pelo luminosidade acanhada que vinha da rua. Ela começou a falar de forma monocórdica, prosseguiu durante horas com os olhos fixos num ponto do quarto que não era óbvio. Contou histórias de si, cruéis, sórdidas, com tanta maldade como apenas os filmes ou os livros revelam. Como se quisesse lavar-se de si mesma, das capitulações, das falhas de amor-próprio, das inúmeras esperas sem consequência, das traições a tudo o que julgara sagrado. E ele ouviu concentrado no silêncio que envolvia a voz e na chuva que lá fora se despenhava na terra.

Depois ela interrompeu o discurso, tão bruscamente como tinha começado. Voltou-se para a parede e de imediato adormeceu com aquele respirar calmo de um sono profundo. Ele ainda aguardou uns minutos, sentiu-se vazio de quaisquer sentimentos, levantou-se, vestiu-se sem ruído, tapou-a com o cobertor e saiu pé ante pé para a rua.


A chuva parara mas imensos regatos atravessavam o asfalto com uma pressa danada e caiam nas quelhas laterais fazendo um som rouco. Caminhava sem rumo na rua deserta. A manhã começava a despontar pela tonalidade cinzenta que se intrometia na noite. Só agora se lembrava que tinha desligado o telemóvel debaixo do toldo vermelho, pouco antes de ela chegar. Fê-lo sem qualquer razão, mas agora percebia que fora uma forma de cortar a ligação à sua vida, com aquela vida que fora sempre dele, que lhe ocupava o pensamento desde sempre. Precisou de esquecer a autobiografia que andava a escrever desde há muito. Precisava de fazer uma ficção dele mesmo, de um outro qualquer que nem parecido era com ele. E assim foi, uma noite que não fazia nem nunca faria parte de si, que não sentia sua, mas de alguém próximo que entrara em paralelo consigo mesmo.

E agora errante pela rua luzidia, sem ver vivalma, não tinha qualquer certeza se regressava a si ou continuava na ficção em que se tornara. Ainda sem luz nas janelas, uma cidade sem ruído, tão distante da cidade diária, caótica, fervilhante de todos os dias. Nada havia ali que o ligasse ao seu mundo. Nada que lhe pudesse dar uma porta de saída. Talvez se conseguisse entrar no escritório, se à entrada encontrasse o Borges lhe desse a pancada diária nas costas e se encontrasse a sua secretária com as fotos das filhas, talvez reencontrasse o seu próprio mundo.


E o telemóvel tocou.

Quarta-feira, 7 de Setembro de 2011

A menina da chuva



I
Sinto a tristeza em meu redor. Posso mexer-lhe, como a um candeeiro pendente do tecto. Tem um cheiro característico, um sabor ácido e um tom agudo que me acorda a meio da noite e me distrai nas suas imensas solicitações.

Às vezes, camuflada como um guerrilheiro astuto, desaparece. Chego a acreditar que se foi embora de vez para outras paragens e fico aliviado pela ausência de um companheiro tão enfadonho. Dias, meses, anos depois regressa, salta-me para as costas e levo-o comigo como um fardo. O seu peso cansa-me e, por alguns momentos, sento-me a descansar de olho no céu gigante e tenho ganas de me perder nele, como em sonhos.

Até posso ser feliz em instantes, onde a alegria e a beleza se juntam, noivos de si mesmos. Mas quando fico sozinha a olhar o mar, ou as nuvens claras que correm no céu como gaiatos, então a tristeza regressa e senta-se a meu lado, a olhar-me fixamente como a inocência. Então reconheço que faz parte de mim como outra peça qualquer minha, como a minha própria história, a língua com que falo e penso, a família.

Não é triste ser triste. Faz parte da natureza, como não poder voar, ou ter corpo, ou não conseguir dizer a verdade a alguém sem que nos veja os olhos ou a boca.

II
Somos feitos de tristezas. São elas que nos edificam, tal como os alicerces tornam sólidas as construções. Sem o sofrimento, a decepção, desilusão, abandono, traição, não sentiríamos densidade no ser, deste ser histórico que se vai densificando, tornando espesso, obscuro, trágico, marcado, que tem algo para dizer, para ultrapassar. Crítico, problemático, inquiridor.

Com a vida a correr sempre de feição, ficaríamos simplórios, patetas alegres. Superficiais, limitados nos afectos, barrados nas potencialidades que a vida só põe ao dispor dos sofredores, daqueles que fizeram a recruta no dissabor.

Tornamo-nos tristes, mas mais sábios. Sábios tristes. Não há sabedoria sem a desilusão. E a decepção impede-nos a felicidade, aquele estado perpétuo em que tudo está ordenado, equilibrado, sem anomalias, horizontes sem mácula.

III
Deambulava pela casa sem norte. Sentava-se, levantava-se, ligava a televisão e desligava-a de imediato, pegava num livro e ainda não tinha terminado a leitura do parágrafo fechava-o com agitação. Deitava-se na cama e enrolava-se no lençol, mas o sono estava tão longe como ela própria.

Levantou-se de rompante e saiu para a rua enlameada e não regressou a casa procurar o chapéu-de-chuva para fazer frente à surpresa da chuva.

O problema da tristeza, pensava ela, é ser uma pele, não uma roupa. A roupa despe-se, troca-se, a tristeza não, permanece mesmo com as lavagens. Mas ela sabia – ao contrário de testemunhos de conhecidos – sabia bem a origem daquela segunda pele. Razões tão banais quanto ridículas. Banais porque ninguém seria capaz de admitir em público que era triste por uma questão aparentemente fácil de alterar. Como se fosse triste por querer sê-lo e não uma inevitabilidade como quase todos admitem. Então aí vai. Ela com quase trinta e cinco anos sentia-se triste porque nunca conseguira tomar qualquer decisão na sua vida sem ter o aval, discreto ou formal, de quem gostava. Poderia saber o que queria e todos julgarem a melhor opção, mas tinham que dizê-lo, tinham que clarificar esse gesto. Não poderiam dizer “faz o que julgares melhor!”, não! tinham que dizer “acho que tens toda a razão, sem dúvida é o melhor caminho!”.

Como é possível que sendo ela uma pessoa tão prática, tão sensata, com um comportamento tão asseado ao longo da sua vida ainda hoje precisava de uma palavra de conforto dos que lhe eram mais próximos? Estranho não é?! Mas ninguém com juízo completo poderia estar em desacordo com ela, sendo ela um exemplo tão perfeito de alguém com juízo e prudente. A interrogação sobre o que pensavam era um acto de pura gestão de um ego que sempre sabia o que devia fazer porque sempre fizera o que os outros esperavam que fizesse.

E ela descendo a rua com a chuva cada vez mais violenta sobre si, ensopada até aos ossos, e cada vez mais gostando daquela sensação de pecado porque não procurava um abrigo, porque não se escondia dos olhos estupefactos dos outros no interior dos automóveis, mas entrando na chuva como num antro de bandidos que ela enfrentava com unhas e dentes que percebeu que a sua tristeza não era mais do que o resultado de uma vida ao ritmo dos outros, daquilo que eles esperavam, daquilo que ela fazia e que os fazia felizes. Mesmo no relacionamento com quem amava: os seus tempos, as suas coisas, os sorrisos, os carinhos, o sexo. Desde pequena que sempre fizera o que os outros esperavam que fizesse, mesmo que esse resultado não fosse mais daquilo que ela sempre quisera fazer.

Estranho, mas honestamente verdadeiro. Devia haver uma razão qualquer psicológica, psiquiátrica, psicofisiológica, psicomórfica ou outras razões iniciadas em “psico” que ela não conseguia agora identificar. E riu-se com essa procura sem nexo por palavras iniciadas nestas cinco letras que davam tanto trabalho a profissionais da área. Com o passo acelerado, os sapatos a boiar na água das poças, os olhos no céu escuro, escorrendo água pelos cabelos castanhos encaracolados e um sorriso no rosto que começava a clarear-lhe a face.