Quarta-feira, 15 de Julho de 2009

A Casa do Lado


Filomena dava tudo por uma união de facto. Uniões tivera muitas, mas quando chegava a hora de as oficializar e dar um rumo, todos fugiram como as cobras dos incêndios. Perdeu a face nalgumas ocasiões, noutras o orgulho andou pelas ruas da amargura. Rastejou, implorou uma vida a dois, mesmo a mais se tal fosse impreterível, mas nada lhe valeu e a solidão transformou-se num cenário de batalha, com feridas abertas e cicatrizes que dariam para várias vidas. Agora com quarenta e três anos, após conviver com todos os ofícios, parecia ter ficado desempregada definitivamente. O último fora um delegado de propaganda médica que na derradeira visita prometera regresso definitivo e mudança de profissão, mas já lá iam três anos e dez dias e destroçara todas as esperanças.

Vivia numa casa acolhedora e decorada com gosto e cuidava-se de forma sugestiva e exigente. Rua abaixo, rua acima, pose de estrela e olhar cortante, todos os dias a marcar o território. Tal como personagem de comédia romântica transformava a rua num cenário burlesco. Fazia travessuras de menina jovem e atrevida aos homens conhecidos, piada na ponta da língua provocando reacções e trejeitos maliciosos. Dona de uns lábios carnudos, de tal forma pastosos que contemplá-la a beber um café ao princípio da tarde na pastelaria era uma experiência alucinante. Sorvia com algum aparato e o líquido aromático que escorria pelos beiços era desgastado cuidadosamente gota por gota.

Martirizava-se tanto pela ausência de homem fixo que para atenuar a falta comprou um cão. Percebia a diferença, mas os afectos tornam-se mais genuínos ao definirem-se critérios. Gostava do bicho como de um parente próprio, até lhe poderia dar a comida à boca por ser mais esquisito do que um Sultão das arábias, mas quando se tratava ponderar circunstâncias ou identificar finalidades, aí as dúvidas desapareciam e homem metido em casa por compromisso firmado adquiria um valor que cão nenhum poderia presumir. Por isso, qualquer resposta mais atrevida, qualquer atenção mais espampanante, qualquer gentileza mais afectuosa, era logo motivo para uma atenção de ave de rapina. E nesses tempos de entusiasmo quem se tramava era o animal. Devido à birra de só comer de colher pela mão da dona passava uma fome de cão.

Mas no meio dessas manobras os anos foram passando, o cão cada vez mais velho, ela cada vez mais obsessiva. E foi num Setembro chuvoso que arribou à cidade um militar em tempo de reforma e vida familiar num impasse. Após a separação não poderia habitar a casa degradada que recebera de herança e procurava uma casa até resolver os problemas de infiltrações no telhado. Ficaria num hotel até encontrar uma solução. No dia seguinte, entre telefonemas e o diabo a quatro, Filomena não só já tinha a biografia completa do herói de armas, como na mão a solução para o problema. Conseguira a chave de uma casa pegada à sua, cedida temporariamente, enquanto a proprietária fazia vida no Canadá. O encontro com o fardado teve conotações com fina estratégia militar.
Apresentou-se no hotel e pediu para falar com o senhor comandante, recém-chegado. Pouco depois, ele surgiu na recepção meio aturdido, alto e muito magro, com a face marcada de sulcos profundos e vestido de forma atabalhoada. Olhava para todos os lados para identificar alguma cara conhecida, ela acercou-se e interrompeu-lhe a pesquisa.
- Sou o seu anjo da guarda, muito prazer.
- Mas eu não pedi nenhum. Disse ele, sorrindo e espantado.
- Nestas coisas do céu só Deus na sua infinita sabedoria é que sabe.
- Mas eu não preciso de guarda, apenas um tecto impermeável! E deu uma gargalhada sonora.
- Olhem que coincidência! Talvez tenha o que procura…
- Mas olhe que um tecto é uma coisa muito grande e não se guarda facilmente!
- Sabe-se lá, sabe-se lá…

O homem ainda manietado pela surpresa estendeu a mão timidamente, disse o nome e despediram-se após conversa de circunstância. Ao fim da tarde Filomena reapareceu com a solução na mão, uma chave tão reluzente como um castiçal de igreja. O militar recuou numa manobra de contenção,
- Mas eu nem conheço a senhora, porque é que me fará uma coisa destas?!
- Sabe, mas uma amiga comum…
- Mas eu nem tenho amigas na cidade… Depois de uma hesitação. - Agradeço na mesma, cá me arranjo.
- Claro, o senhor é que sabe. Mas olhe que na vida não se pode ser pobre e mal agradecido – e fitou-o com um sorriso aberto, misturado com algum azedume.

Um recuo estratégico. Sabia da enorme dificuldade em encontrar uma casa vaga na cidade e, mais cedo ou mais tarde, anuiria. Uma semana depois, tal como previsto, surge do nada, como mera coincidência e quase tropeçam na esquina feita de loja de sapatos.
- Ah, o senhor general!
- Bom, desculpe, eu não sou general.
- Olhe, não importa, tem corpo para isso! - Ele ria mais do que a elegância o permite. Vamos tomar um café? perguntou ela sorrateira, está bem, respondeu ele a custo, e, ao olhar embasbacado para aquele sorvedouro barulhento, o militar rendeu-se às forças estrangeiras e acertou uma mesada barata por ser um guerreiro que defende o País, caso necessário, com o sacrifício da própria vida. As portas das casas eram tão juntas que se poderia enganar sem escândalo algum, garantia ela ao cão enrodilhado no seu colo, ao mesmo tempo que ouvia os passos lentos do militar no soalho da casa do lado.

Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

A dor da infância


Analisei-te como se um foco de luz incidisse na tua alma. A leitura foi clara, estavas escrita em letras garrafais e em linguagem simples. Sem obstáculos ao meu olhar. Não tentaste disfarçar a tristeza, a debilidade física e o sofrimento. Julgo que apenas suavizaste a desilusão, talvez porque o teu orgulho te impede de destruíres a grande máxima da tua vida: a vida vale sempre a pena.

Olhavas apenas para mim sem qualquer esforço em pensares em mim. Sabias que eu estava atento a ti e preferiste sair para qualquer lugar onde eu nunca te poderia encontrar. Não disseste uma única palavra e eu levantei-me despedi-me, um “até amanhã”, entre dentes, como se não tivesse a certeza se regressaria. Na verdade, não volto. Não consigo rever-te nessa tua antecâmara da morte, alguém que me acostumei a ver em gestos firmes e movimentos fáceis. Guardarei essa imagem num álbum de fotografias, eu que te aguardava para receber palavras de esperança e de luta.

Estranho esse teu lado de desistente. Um desespero porque a morte não chega. Pretendias que fosse fulminante como um pestanejar. Rezas para que o sono que vai e vem te leve de vez. Já nada te dá prazer, ninguém te arranca um sorriso, como se já partilhasses da morte que ainda esperas.

E agora vamos juntos subindo a serra em passos firmes. De um lado, um pinhal impenetrável separado de nós por um muro baixo. Pisamos a estrada de terra seca e pedras pontiagudas espreitam e reflectem o sol. Caminhamos na maioria do tempo em silêncio. Era ainda tão pequeno que corria para te acompanhar. Nunca fomos grandes confidentes. Nunca te contei as minhas angústias, e tu nunca me trataste como amigo. Gostamos um do outro porque repartimos vísceras, códigos, esconderijos que nos salvariam de ataques cósmicos. Morreríamos um pelo outro, se tal fosse necessário, não pelo amor que nos une, mas por tudo aquilo que nos construiu. E continuamos a caminhar. Sinto o vento gelado na face e dor nas pernas. Mas não te comoverias com lamentos, nem aceitarias interregnos. E já pertinho da ermida de Nossa Senhora dos Prazeres, quando a serra nos servia cenários soberbos, olhaste-me nos olhos, como quem repara em manchas de sujidade para as emendar e comentaste em tom seco: “ Já és grandinho e quero dizer-te algo muito importante. A vida não é para covardes. Se tiveres medo fecha os olhos e avança, se te faltarem as forças nas pernas vai de gatas. Mas nunca te escondas. Se temos muito medo em perder a vida, ela passa-nos ao lado e ficamos para trás.”

Foi mais ou menos isto. Não respondi, apenas assenti com um gesto. E recomeçaste a caminhada. Sabia que ainda faltava metade do caminho para percorrer. Atrás de ti, mas já sem dores nas pernas, nem lamentos. Tal como no resto da minha vida.

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

A Vingança


Tenho cá para mim que ele nem a viu. Afirmou-o e jurou-o depois, pela alma de sua mãezinha, que não tinha reparado nela nem correspondido com qualquer galanteio. Segundo o testemunho de alguém bem colocado, ela olhara-o de alto abaixo como se olha um homem para fins não matrimoniais e depois continuou rua acima, em direcção da sua casa que comandava as vistas na praça Duarte Gomes, enquanto ele teria respondido com uma observação cujo conteúdo era diferente conforme as versões. Uns afirmavam que apenas lhe teria retribuído com um simples “comia-te toda!”, outros que se limitara a dizer “ És boa como o milho!”. Seja como for, uma indiscrição que iria custar-lhe a vida, pois o marido não poderia admitir que a sua mulher fosse objecto de um piropo tão cheio de segundas intenções, quando ela tinha em casa um homem que chegava e sobrava para lhe apaziguar todas as labaredas do corpo.

Quando a GNR chegou para o levar para a cadeia do Linhó não só se deixou algemar como manteve o semblante cheio de soberba por ter cumprido o seu dever. Já na cadeia soube que a mulher, afinal, não só continuava a olhar de alto abaixo os homens como os levava para casa, deitava-os na sua própria cama e fazia com eles todas as porcarias descritas em revistas da especialidade e naqueles longos anos debaixo de telha teve a certeza que quando saísse não haveria local seguro, nem longínquo para ela, pois iria tratar-lhe-ia da saúde com todos os preparos sádicos que as noites silenciosas e lentas da prisão lhe davam oportunidade para inventar.

Saiu vinte anos e dois dias após aquele trágico incidente. Estava bem mais velho. A calvície, a barriga meio saliente e as rugas nas mãos testemunhavam o facto com crueza. Fez um sinal de desânimo ao olhar-se pela última vez no espelho da casa de banho. Rapidamente, percorreu todos os pormenores que os vinte anos lhe ensinara a pontuar, lavou a cara após encher de água as duas mãos juntas, parou um instante para ter a certeza de que nada esquecia e encaminhou-se para a porta. Saiu do portão como se estivesse de novo a sair da barriga da mãe. Apeteceu-lhe chorar e algumas lágrimas percorreram a face sem saber bem a razão. O dia encaminhava-se para o fim e o sol por trás do monte iluminava a paisagem seca. O calor abrasador dos últimos dias amarelara as coisas e parecia-lhe que, tal como ele, o mundo envelhecera a olhos vistos.

Ninguém o esperava. A família mais chegada foi morrendo durante as duas décadas como fruta madura. Próximo, ninguém restara. Por herança, coubera-lhe um pequeno casebre na aldeia e uns terrenos de pouco valor comercial, mas capazes de fazer crescer batatas, feijão e cebolo. Sem alternativas, recomeçaria aí a sua vida, depois tinha tempo para engendrar novos rumos. Os primeiros dias ocupou-os a arrumar coisas que ficaram por ali abandonadas, desde roupas velhas, fotografias, artefactos agrícolas que lhe traziam à memória uma infância povoada de rostos afectuosos e vida dura. A maioria deitou no lixo, outras guardou-as em arcas velhas na loja, enquanto as fotografias espalhou-as pela casa. Depois saiu para a rua, cruzou-se com desconhecidos que lhe viraram a cara e no pequeno supermercado comprou pão, queijo e alguns pacotes de leite. Em casa, enquanto comia, decidiu adquirir animais, uma galinha, dois coelhos, dois patos, um porco e duas cabras. Apontou tudo o que precisava numa folha amarelada para nada esquecer na próxima visita à feira da Vila.

E nesse dia o curral – após tantos anos árido e silencioso – era agora um antro de vida, uma espécie de arca de Noé que encerrava a força vital que alimentaria o futuro após o dilúvio. Indivíduos que não se conheciam, mas que, após algumas celeumas e guerra de territórios, pactos e estratégias de intimidação, iam-se acomodando como se percebessem que a partir daí teriam de inventar razões para gostarem uns dos outros. Ele sentado na varanda olhava aquele mundo novo que se aconchegava e sentiu-se feliz pela primeira vez em muitos anos. Construiria algo harmonioso junto aos montes. Com horizontes de perder de vista, um silêncio cósmico apenas quebrado aqui e ali por pequenos movimentos das árvores ou das poucas pessoas que restavam, podia recuperar o espaço perdido na clausura e limpar o coração de velhos ódios que matam como cancros silenciosos. E nesse final de tarde teve a certeza que a vingança que o manteve vivo na prisão tinha cumprido já o seu papel. Agora preferia olhar a serra cheia de pinheiros acotovelando-se uns aos outros, enquanto no curral os bichos se afadigavam a compor a cama, pois a noite não tardava a chegar.

Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

A despedida




Não se pode dizer que fora apanhada de surpresa. Quinze anos antes, um parecer médico deu-lhe apenas três anos de vida quando foi descoberto um cancro nos ossos. Nessa altura, apoiada num muro que cercava a baía, chorou pela primeira vez a sua morte e foi-a lamentando todos os dias até ser declarada naquele dia de Natal, num dia de céu azul, mas frio como o gelo.

Correu ao hospital logo que se deu o alarme e, num quarto assombrado por uma respiração rouca de quem queria deitar fora algo que teimava em sobrar, permaneceu imóvel e em silêncio. O dia tinha ficado para trás e o resto da família saíra para preparar o jantar da consoada. Apagou a luz, no quarto entravam reflexos do brilho que envolvia a cidade e acomodavam-se às linhas florescentes dos instrumentos médicos. Pelo silêncio envolvente, questionou-se se naquele dia de festa não teriam todos ido embora deixando-os ali esquecidos. Nessa manhã ainda combinaram o jantar tradicional de bacalhau com couves, mas depois a mudez nunca mais foi quebrada e o seu estado piorava de forma veloz como se estivesse apenas à sua espera para morrer. Cerca das vinte e uma horas faleceu.

Após os procedimentos burocráticos, dois funcionários da agência levaram o corpo para a casa mortuária. Mesmo sabendo da interdição, pediu-lhes um pequeno desvio e eles concordaram, talvez imbuídos pelos sentimentos de generosidade e paciência próprios da quadra. Transportaram-no pela cidade quase deserta, pararam uns momentos junto ao edifício do tribunal onde foi funcionário durante quarenta anos, atravessaram ruas que ele calcorreou diariamente e depois subiram pelo caminho estreito que dava acesso à casa, emoldurado por encostas que caíam sobre o rio. Ao chegar à porta, viu dentro luzes e sombras que passeavam junto às janelas, demorou uns segundos, como para lhe dar tempo de olhar todos os pormenores mais significativos, e depois abandonaram o local. Era já muito tarde. O corpo teria de ficar na casa mortuária até ao princípio da manhã, com hora marcada de saída para norte. Depositaram o caixão sobre uma pedra de granito, mesmo no centro da coxia da capela, agradeceu –lhes a simpatia e despediram-se. Apenas queria ficar uns momentos a sós com ele. Deixaria tudo fechado e encontraria modo de regressar a casa.

Acomodou-se lentamente à obscuridade. Sentou-se numa cadeira mesmo à beirinha do caixão e, no meio do silêncio intenso, ouviu a sua própria voz a comunicar que nunca o deixaria partir sem uma última conversa, aquela que esclareceria tudo aquilo que ficara pendente. E recontou a sua história desde a infância, com pormenores há muito perdidos e desvendados por uma química qualquer. Disse em voz alta coisas encravadas na garganta, realidades que nunca teve coragem de dizer nem a ele nem a ninguém, segredos que despejou ao mesmo tempo, como se fosse uma cheia de água lamacenta proveniente de uma tempestade de Verão. Repreendeu-o pela sua violência e falta de gestos afectuosos, dos anos de alcoolismo que causaram danos irreparáveis na família, situações de mentira por medo dos castigos, mas também do orgulho que calara quando concluiu a tese de doutoramento, com o casamento e o nascimento do neto que adorava. E do amor que restara daquele turbilhão de afectos e desamores que os tinham unido e repudiado ao longo da vida…

E depois disse-lhe um até amanhã, como quem se despede de um amigo e fechou o tampo do caixão com o cuidado que se tem com preciosidades. No dia seguinte quando regressou reconheceu que já não havia qualquer ressentimento, nenhuma mágoa, nenhuma censura, nenhum segredo, e poderiam agora fazer o caminho juntos como dois bons amigos que se encontram e se acompanham mutuamente até às respectivas habitações, sabendo que poderão contar sempre um com o outro. Na memória de ambos ficarão guardados afectos sem mácula, daqueles que nem a morte pode destruir.

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

O sorriso da Emília


A loucura sempre incomodou. Abana com a comodidade da norma, a felicidade das ideias feitas, a conformidade com os rituais, com os hábitos, com os modelos. Por isso, desde sempre, gerou marginalidade, pois não é possível a convivência pacífica entre uma perspectiva estática da verdade e um discurso disforme, irrequieto e revolucionário. Por isso, todos os génios foram incompreendidos no seu próprio tempo, porque a sua vista alcançava mundos distantes e contraditórios com aqueles que serviam de cenário aos demais.

Claro, que ao lado desta loucura impregnada de genialidade há uma outra mais silenciosa, mais dramática que é a deficiência mental. Doença maldita que suscitou sempre temor e violência, pela incompreensão da sua origem e significado. Foucaut descreve esse percurso dantesco, desde a identificação entre loucura e animalidade - ao mesmo tempo que descrevia os maus tratos infligidos em masmorras de cortar a respiração ou em navios que vagueavam sem rumo - até à visão humanista e integradora que hoje percorre a sociedade ocidental. A loucura, sendo uma doença estudada, diagnosticada, impõe mecanismos técnicos de controlo, infra-estruturas condignas para internamento dos doentes e campanhas de promoção dos direitos dos deficientes. Mas, em geral, todos queremos esquecer a existência do problema e viver longe dos nossos próprios fantasmas.

Vem isto a propósito de uma experiência que vivi há alguns anos após um convite de uma Associação para participar numa colónia de férias na Tocha, com um grupo de jovens com deficiências mentais. Sendo a minha primeira experiência de contacto com a doença ia com o coração apertado, antecipando quadros horrendos, justificados pela ausência de imagens ou análises nos meios de comunicação social. As pessoas não querem falar disso, as famílias que vivem o drama tendem a escondê-lo dos outros, as comunidades de internamento fecham-se sobre si mesmas. Parece que o silêncio é conveniente para todos.

Mas, afinal, a ansiedade deu origem à surpresa de ter à minha frente quase duas dezenas de jovens, de aspecto normal, sorridentes, com comportamentos normalizados. Infantis, mas cheios de significado. Gestos repletos de comunicação, presença em catadupas de afectos, sorrisos que, facilmente, se poderiam confundir com esperança. Ainda hoje me lembro dos seus nomes, das brincadeiras, das canções, das pinturas, da ida à discoteca do Centro, dos olhares esbugalhados e divertidos face a novas situações. Lembro-me do sorriso da Emília, o mais gracioso de todos, ao entrar pela primeira vez numa piscina, batendo com as duas mãos na água, extravasando uma felicidade surpreendente... Aliás, o caso da Emília é paradigmático. Tinha perto de trinta anos e estava há dois anos internada. Desde criança que trabalhava de sol a sol nas fainas agrícolas dos pais, mal alimentada e acomodada numa espécie de galinheiro. A Segurança Social, após denúncia, descobriu-a em condições sub-humanas e determinou a sua institucionalização. As técnicas contaram que alguns dias após o internamento começou a exibir uma personalidade mais afável, sorria com os gestos meigos dos outros, e ficava excitadíssima quando a ementa do almoço era sardinha, pois na casa da família era o conduto das festas. Comia um grande número, engolindo-as inteiras. A fartura fazia-a feliz, ria muito, desvendando os dentes manchados e um espaço escuro no meio deles.

Os dias passavam calmos e devagar. Ao pequeno-almoço e ao jantar as doentes tomavam grandes quantidades de químicos. Comprimidos de várias cores e tamanhos que eram engolidos num trago pela força do hábito e de líquidos. Algumas protestavam, faziam birras, esbracejavam e só a custo todo o procedimento se resolvia. Depois permaneciam mais reservadas, mais melancólicas, perdendo muita da espontaneidade. Eu ficava sempre na dúvida se os fármacos não lhe diminuiriam a vida que elas desejavam ter e a que tinham direito, reconduzindo-as a uma natureza mais pachorrenta, moldada à medida de nós. Os outros.

Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

A falta que Londres lhe faz...



Reparei nele quando confessava em público que não poderia concluir o curso porque em breve partiria para Londres. Afirmava sem qualquer tremura na voz, com aquele entusiasmo que põe de parte qualquer sombra de dúvida ou resquício de tristeza. O grupo que o rodeava calou-se quase ao mesmo tempo e alguém comentou.
- Quem me dera! E vais com quem?
- Com o meu pai. – Foi evidente o orgulho quando disse “pai”.

De baixa estatura, com uma cara redonda que faz lembrar queijos da serra, cabelo à escovinha e olhos grandes, idade próxima dos vinte anos. O corpo disforme, largo e as mãos nos dois bolsos forçavam as calças de tal maneira que parecia eminente a sua queda. Faz parte de uma turma arrumada à pressa para quem nunca gostou da escola, nem se importou em aprender, nem se comoveu com futuros mais lúcidos, e que novas oportunidades os empurraram contra paredes que eles desprezaram no seu devido tempo. Agora ganharam posturas mais serenas, alguns com remorsos sinceros de não terem levado em conta deveres antigos. Um perguntou-lhe:
- Mas o que vais tu fazer para Londres?
- O meu pai tem lá emprego e eu espero encontrar um rapidamente. E se tudo correr bem nunca mais volto.

Afirmações num tom de voz mais agudo, com crueldade, como se estivesse a vingar-se de alguém, ou de muitos, possivelmente do País. Na sua mira Londres, a cidade que desfila nos sonhos dos mais novos. Lá haverá trabalho e a vida que falta aqui. Quero lá saber do sol. O que já apanhei dá para uma vida inteira. Monopolizava a conversa. Sonhara demasiadas vezes com o projecto e tinha na manga trunfos que geram entusiasmo. Apanhava-os de surpresa e a maioria invejava a sua sorte. Notava-se que queria prolongar aquele momento como uma expiação de invisibilidade antiga e agora transformado numa celebridade apanhada pelas objectivas dos paparazi. Mas a aula ia começar e ele saiu de cena sem eu dar por isso.

Dias passaram. Não muitos, talvez duas ou três semanas. Ontem cruzamo-nos no corredor, sozinhos e ambos sem firmeza nos passos, hesitando na direcção a tomar. Num corredor tão vazio e silencioso como se ambos andássemos num local de passagem proibida. Olhei para o relógio, depois para ele e fez-me um gesto de reconhecimento. Lembrei-me de Londres e do sortudo em lista de espera.
- Tudo bem? Perguntei-lhe. Ele olhou-me com um embaraço esquivo e, como se me devesse uma explicação, atirou-se decidido ao assunto.
- Já não vou para Londres! Com semblante magoado de uma criança a quem lhe retiraram um brinquedo por simples maldade. - O meu pai adoeceu gravemente. Uma crise na semana passada levou-o ao hospital.

Depois o silêncio, no meio de um corredor desabitado, assombrado por rostos enormes de uma exposição de cariz étnico.
- Tenha calma. Quando melhorar, poderão pensar de novo na viagem. - Disse-lhe.
- Não, para ele acabou-se. Terminaram-se as viagens. Tem uma cirrose em último grau e esteve internado no hospital toda a semana. Agora deixou definitivamente o álcool, caso contrário corria risco de vida.

Não olhava para mim, mas para qualquer ponto fixo no fundo do corredor. Parecia estar a contemplar o cenário da sua própria vida, um pai doente, uma porta do aeroporto fechada, um País sem qualquer esperança e uma escola sem qualquer atracção. Com as mãos nos bolsos continuava a pressionar as calças como se fosse uma tarefa espinhosa que teria de concluir mais cedo ou mais tarde. E continuou.
- Agora às sextas-feiras tenho de faltar às aulas. A minha madrasta trabalha nas noites de sexta e fico em casa a cuidar dele. Faço-lhe chá e recados para não ter que se chatear. Sabe, ele não pode irritar-se. Os nervos dele andam em franja devido à falta do álcool e o stress em excesso poderá ser fatal. Já teve crises horríveis e parece que vai morrer.

Fitei-o com pena, para a sua triste figura, acabado, como se tratasse de um velho de dezanove anos. Um incómodo e um peso que duplicavam à medida que o futuro se tornava lúgubre como o céu de Londres que ele nunca viu. Já perdera o destino que lhe daria de volta a vida, agora poderia perder o pai, o único super-herói com poder de o tirar daqui para fora, libertando-o desta vida de vexames e solidão. Insistiu.
- Qualquer irritação poderá matá-lo e a minha madrasta chateia-o de vez em quando. A única solução seria um transplante do fígado e há uma hipótese de ser eu o doador. Não sei ainda…

Para mim chegava. Não queria mais pormenores, não queria mais confidências. Deixei de o olhar e espiava agora o corredor que continuava desguarnecido, como um estádio depois do dia do jogo. O meu vizinho persistia em tentar tirar as calças do seu sítio e a olhar para o vazio. Era a segunda vez que nos encontrávamos e sabia mais pormenores dele e da família do que da maioria das pessoas que conheço. A sua tristeza profunda, a falta que Londres lhe fazia, apesar de nunca lá ter ido, um pai com uma cirrose e dono de uma irritação que o poderia matar, os chás que lhe compunha às sextas, enfermidades que o deixaram apeado no aeroporto, bebedeiras largadas por medo da morte, do seu problema crónico com as calças, do ódio ao País, ao sol, à escola.

Entretanto, chegavam a conta gotas caras conhecidas, como numa peça de teatro a decorrer em campo aberto. Personagens que passavam por mim desculpando-se do atraso com razões pouco verosímeis, de tal maneira que coloquei a hipótese de que todos estavam coniventes para que ele se libertasse da culpa de eu estar na posse de velhas histórias que o destino tinha alterado. Antes de entrarem, olhavam de soslaio para aquela figura que se encostava a mim como se estivesse apoiado, com uma face redonda - tipo queijo da serra - e semblante triste. Apertei-lhe a mão para o mandar embora, resmungou qualquer coisa que não percebi e lá dentro, após a acalmia, narrei histórias que se prolongaram noite dentro sobre vidas tão complicadas como teoremas matemáticos, filhos quase menores que cuidam de pais que poderão morrer nos seus braços, doadores de fígados saudáveis para transplantes e chás aos fins da noite, na esperança que, num dia, as portas do aeroporto se abram de par em par e o nome deles sejam enunciados num altifalante, passageiros atrasados no embarque para Londres.

Quarta-feira, 3 de Junho de 2009

Quando nos arrastamos em busca de nós...


Sem sombra de dúvida, naquele dia, iria jogar todos os seus trunfos. Era agora ou nunca. Sentia-se tão forte como um rochedo, defendido por todos os lados. Não havia qualquer risco que colocasse em perigo a sua certificação. Seria delicado, interessante, perfumado, sereno. Esperaria dela um momento de fraqueza, um ápice de fragilidade. Mas não tinha pressa, poderia ser amanhã ou mesmo depois. Aguardaria a estocada final para o momento propício. Vivia obcecado com a possibilidade de a ter, solução para todos os seus enigmas, ponte para futuros risonhos. Seria feliz, ganharia aquele estado de espírito de bem-aventurança própria dos afortunados. Ao longo da sua vida dispôs de poucos instantes onde fosse tão evidente o caminho para a realização pessoal.

Subiu as escadas, bateu à porta com o nó dos dedos, esperou resposta, bateu novamente com pouco vigor, depois com mais força, até que concluiu que ninguém o esperava. Desceu a escadaria com a garganta a saber a fel. Foram amigos, mas um dia fitou-a nos olhos e, quase sem pensar, admitiu-lhe que se alterara a forma de a ver. Agora, julgava ter encontrado a mulher da sua vida. No início, ela declinou amavelmente a reviravolta, mas após tanta insistência e quando, finalmente, julgava poder contar com o seu colo, ela recusara estar no local combinado. Se eu não estiver, o melhor é nunca mais me procurares, disse. Poderás ganhar tudo ou perderes o muito que tens. Foi da tua responsabilidade, mas ao chegar-se aqui não se pode voltar atrás.

E com o vento forte a levantar-lhe os cabelos, sentiu-se mais uma vez um miserável, objecto de repulsa e traição. Sempre acreditou que os outros seriam a fonte da sua liberdade, da alegria, da sua acomodação ao Universo. Admitia que a felicidade é desempenhar um papel destinado pela ordem universal, ocupar o seu lugar natural de que falava a cosmologia antiga. O Cosmos é uma espécie de puzzle infinito, onde cada ser, cada coisa, se vai encaixando, se vai aconchegando, ao mesmo tempo que se conquista a convicção de ter chegado finalmente a casa. Até atingir esse patamar, todos terão de resistir aos vazios, à envolvência do medo e da tristeza que os rodeiam como a ventania. No telemóvel em chamamento olhou para o nome dela a brilhar no mostrador, mas não atendeu. Suportou a inércia como se o facto o libertasse de todo o vazio que se seguiria. Chegou a casa, deitou-se no sofá com as pernas apoiadas na secretária, abriu a televisão num canal onde séries americanas passam sem intervalos, um calmante feito de histórias com finais felizes.

Uma hora depois acordou e sentiu-se desabitado, tão oco como uma noz vazia. Olhou pela janela e o mundo continuava com o mesmo ritmo, o mesmo cheiro, um cenário semelhante ao mundo de ontem e de anteontem. Manchas verdes, outras mais escuras de cor da terra, uma encenação dourada por um Verão abrasador. O céu dotado de azul transparente destacava o branco das casas que pareciam adormecidas pela canícula. Concluiu que o Universo não se submete às nossas manifestações de ansiedade, egoístas e mesquinhas aspirações de poder, ânsias de heroísmo capazes de resolver as fragilidades que nos maltratam. Se resistirmos e nos recostarmos serenamente a um tempo frouxo que faz amarelecer a erva dos campos e amadurecer as frutas das árvores, num silêncio absoluto – só cortado aqui e ali pelo frágil balouçar das ervas esguias – então, conseguiremos reencontrar a nossa natureza, a nossa liberdade, a nossa fortuna.